Artigo

Um protesto contra a morte que não sabe escolher e está levando crianças inocentes

Escrito por Julio Ribeiro em 28 de Março de 2019
[Um protesto contra a morte que não sabe escolher e está levando crianças inocentes]

Peço licença para republicar este artigo, como protesto, acrescentando três crianças que morreram em Camaçari vítimas da violência do tráfico de drogas. O texto tocou fundo no sentimento das pessoas, e novamente um grito de indignação quase que coletivo foi dado.

Pois no céu chegou há poucas horas a garotinha Bruna Cruz de apenas 9 anos, que tinha acabado de sair da escola, levava com ela ainda o cheiro dos colegas de sala de aula e nos dedos as marcas do lápis e do caderno. Calçava sapatinho cor de rosa, de cor bonita como a farda do colégio Carpe Diem, camisa branca e short vermelho. O cabelo longo e cacheado estava preso, linda igual  todas as princesas de sua idade.

Não, não há na terra coisa mais bela do que uma menina de nove anos de idade e no céu não haveria de ser diferente, por isso a cara de espanto de todos por lá se perguntando, porque mandaram essa menina tão cedo?

Bruna foi vitima de tiros disparados nesta quarta-feira (28),  por pessoas envolvidas em tráfico de drogas, como também morreu o pequeno Licon em Arembepe em 30 de janeiro de 2014, quando homens encapuzados invadiram sua casa na Praça dos Coqueiros para cometer um assassinato, e a criança de 13 anos acordou assustada com os disparos e foi alvejado por três tiros.

“Foi muito triste para nós aqui de Arembepe perder aquela criança. Arembepe sente até hoje a perda dele, pela criança que era. Educado, estudioso, trabalhador, mesmo naquela idade já pensava em trabalhar para ajudar a mãe.” Disse um amigo.

Dessa forma violenta também morreu no bairro da Nova Vitória em Camaçari o menino Iury Yves Mendes dos Santos, de 13 anos em 2015, que cheio de planos veio de Salvador  passar uns dias na casa de primos e tios para não  voltar mais, foi morto por um traficante que passou pelo bairro atirando para todos os lados. Até  hoje, quatro anos depois, a mãe e o pai estão  em casa com depressão  sem trabalhar.

Tragédias que não param, não curam, e a cidade que não fica de luto,  motivam essas reuniões no céu para quem sabe de lá alguém tome uma providencia:

Imagine no céu um encontro formado por tantas crianças mortas na cidade nos últimos anos conversando com quem de direito e perguntando o que tem em Camaçari, que elas foram mortas tão cedo?
Imagine nesse encontro a garota de 13 anos que morreu dentro da Farmácia Pague Menos que desabou sobre ela enquanto olhava o preço de algo que iria pedir para sua mãe acrescentar nas compras.


Imagine também nesse encontro a menina de 9 anos que morreu na Gleba A nas mãos de um monstro, que entrou escondido na casa dela e esperou a garotinha chegar da escola para estuprá-la e matá-la.


Acrescente os dois amiguinhos que foram espancados, torturados, mortos e enterrados em um areal no Jardim Limoeiro porque gostavam de andar a cavalo e morreram porque cavalgaram os cavalos errados.


Imagine chegando agora Hebet de 10 anos querendo explicação dizendo que morreu enganado, porque ele estava apenas brincando em frente a sua casa no Jardim Brasília e foi vítima de uma bala perdida em uma ação policial. Ele reclama nessa reunião que estava preocupado porque tinha as tarefas da escola para entregar e não estava conseguindo fazer o dever.


Imagine a situação do responsável pelo céu para dar explicações para essas crianças.


Ele responderia que Camaçari tem fábrica de carros, tem fábrica de pneus, tem praias, tem carnaval, tem lavagem de Arembepe, mas não tem explicação para essas mortes.


Mas os meninos insistiriam e perguntariam por que não tiveram uma segunda chance?


O responsável pelo céu responderia novamente com muita dificuldade, que Camaçari tem a Cidade do Saber, a UPA Pediátrica, o Shopping Boulevard, a UFBA, o Cinema, o mar, as dunas e o Oceano Atlântico de Jauá a Itacimirim, mas não tem para eles uma segunda chance.


As crianças então viram que não tinham uma resposta, aproveitaram que Jesus ia passando, pegaram nas mãos Dele e saíram dessa reunião brincando pelo céu, com a certeza de que Camaçari tem muitas coisas boas e importantes, mas não sabe escolher quem vai morrer e muito menos cuidar de seus pequeninos.


Abracem, brinquem, amem e cuidem muito bem de todas as crianças, pois elas são tão importantes, que nem o Céu entende e nem sabe explicar, o porquê os moradores de Camaçari não fizeram de tudo para salvar essas crianças, nem o porquê elas morreram tão cedo e nos deram tão pouco tempo para ama-las.


*Julio Ribeiro o autor do texto é jornalista editor do site Camaçari Notícias

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